Não existe razão para as coisas do coração?

Não existe razão para as coisas do coração?

Caio Fernando de Abreu disse que existem momentos em nossas vidas em que parece que a dor não vai passar. Que dói tanto que parece que vamos explodir. E nossa vontade é de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Que a dor é tão malvada que parece estar sambando sobre nosso coração com salto agulha.

Muitos desses momentos nascem das decisões tomadas por nosso coração, que insiste em descartar o óbvio, que teima com a razão e acaba chorando as desilusões que ele mesmo criou. E sim, a dor provocada pode alcançar proporções indesejadas e muito dolorosas.

Sempre acreditei nos números e nas equações. Mas, acabei descobrindo que a lógica de tudo está mesmo no que sentimos, por sermos totalmente guiados por nossas emoções por mais que neguemos ou que nos arrependamos das atitudes envoltas por sentimentos.

A razão está no que se sente. Sei que parece muito contraditório o sentir e o pensar, mas, todos os dias, nas pequenas coisas, percebo que esse choque entre a busca excessiva pela razão e os tropeços nos sentimentos acabam por nos provar que a gente até pode usar a lógica, mas somos guiados pelo que sentimos.

Esse pensamento me faz lembrar um grande nome da ciência. Albert Einstein declarou que “há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atômica: a vontade. Um grande nome da razão, da lógica e sobretudo da ciência, compreendeu o que um sentimento é capaz de realizar.

A lógica leva à razão é fato, mas um momento, um sentimento e a vida acaba nos levando por caminhos onde o destino é o questionamento do que de fato seria a lógica. Porque nós somos capazes de trilhar por caminhos que temos a plena consciência racional que nos levarão à dor.

A lógica te fala para não seguir determinados passos, não tomar determinadas atitudes, mas o sentir te envolve e quando você percebe já foi. E a paixão certamente e logicamente nos levam a decisões equivocadas, de proporções grandiosas que podem nos fazer vivenciar os versos do poeta Caio Fernando de Abreu que citei ao iniciar esse texto.

Em uma vida de procuras entre o físico e o metafísico a gente acaba descobrindo que a lógica te guia, mas em qualquer esquina da vida você acaba tropeçando em si próprio e descobrindo que nas equações sem respostas objetivas é que reside a verdadeira razão e que o sentimento sempre triunfa sobre a razão.

Bel Dantas

Como amar uma mulher forte?

Como amar uma mulher forte?

Sou de uma geração em que a mulher que foi educada para não verbalizar os sentimentos e vontades. Que a opinião da sociedade era mais importante que a satisfação pessoal, mais ainda que o equilíbrio interior. Uma geração, que se não encontrou o momento certo de gritar, lida até hoje, com vários conflitos emocionais.

Fomos levadas a acreditar que existiam certos comportamentos que se repetidos, gerariam sempre o mesmo resultado e ao invés de relacionamentos maduros e ricos em diálogos, vi ao longo desses anos os comportamentos emocionais muito mais parecidos com joguinhos amorosos e de conquista.

Entretanto, o mundo mudou, as mulheres mudaram e hoje o que vejo são mulheres que não passam uma semana esperando as respostas de um homem no qual depositou expectativas, por que ela sente preparada para dizer o que quer e até onde pode ir, inclusive tomando a iniciativa de começar.

Isso gera no sexo oposto um sentimento de incapacidade ou de confusão por não saber como se comportar diante dessa NOVA MULHER, que é moralmente inquestionável, dona de sua independência financeira e emocional e que por esse motivo, expõe o que pensa e deseja e mais que isso, que faz o que deseja.

Creio que seja principalmente, porque o homem deixou de ser o protagonista do início, meio e fim dos relacionamentos. Historicamente a mulher sempre foi comandada pelo homem e educada para ser resiliente, por isso, ele ainda almeja aquela mulher que tem o ruído do seu mundo feito de silêncios.

Infelizmente para eles, além de ser diferente e única, uma mulher forte é também intimidadora. Ela pode desistir pela simples percepção de que faz parte de um jogo de atos medidos. Porque simplesmente não quer desperdiçar seu tempo perseguindo uma pessoa, principalmente se perceber que essa pessoa não tem tempo para gastar com ela.

Esconder emoções é outra atitude equivocada, porque ela é aberta para falar e ouvir e de forma madura, chegar a uma resposta que estabeleça a paz dentro de cada um. A conectividade que tem com suas próprias emoções e com o mundo não a permite estar com uma pessoa que não é capaz de conhecê-la, de se conhecer e acima de tudo, de ser altruísta.

Também não funciona desprezar uma mulher que está dia a dia construindo e fortalecendo sua autoestima. Ela sabe respeitar e principalmente se respeitar. E se o homem deixá-la ir, repetindo os joguinhos estabelecidos historicamente, ela não fará nenhum drama e simplesmente vai, sem rastejar ou implorar. Porque ela não só se entende, como também é capaz de respeitar a decisão do outro.

Essas mulheres incríveis são mais do que muitos homens entendam e mereçam, por isso, eles acabam as perdendo e perceberão dali em diante que serão perseguidos pela lembrança de uma pessoa inesquecível e dos bons momentos vividos com ela, além da perspectiva do que poderiam ter vivido.

Por isso, para amar uma mulher forte e ser amado e respeitado por ela, é necessário um homem igualmente forte que se conheça, que não precise ficar se provando que está no comando ou que é o dono da relação. Porque o que ela quer é somar e não gastar sua energia com “brinquedos de proteção”.

Bel Dantas

Ilusões, livre-se delas

Ilusões, livre-se delas

Uma vez me disseram que maturidade espiritual é quando você reconhece que errou. Essa maturidade que tanto ansiamos, mas que quase nunca encontramos é mesmo muito confusa, por que daqui do ângulo de quem muito erra eu tenho a impressão de que não é suficiente reconhecer o erro se não vai fazer nada com isso.

Melhor mesmo, na minha opinião, é permanecer cego pelas lentes cor de rosa da ilusão do que permanecer no erro, tendo a convicção dele. Reconhecer que errou e não fazer nada, só é nobre por que já é de bom alvitre não jogar no colo do outro aquilo que te pertence. Entretanto, digno mesmo, é amarrar num saco e arrastar nas costas o peso que é seu.

Estar em paz é muito mais caro e raro do que seguir preso às feridas que cicatrizam e abrem, cicatrizam e abrem. Por que quando somos mais seletivos ao que iremos deixar dentro de nós, parece que fica tudo como um guarda roupa depois de uma faxina: organizado.

A gente olha tanto para dentro de nós, que tudo que fazemos é presunçosamente petulante esperando algo em troca, o famoso retorno. Mas, quando começamos a olhar à nossa volta, é que conseguimos compreender a dor do outro, projetando-a. Só assim, entenderemos que ser o motivo dela é muito mais doloroso.

Não precisamos ir de um lado para o outro em busca do sossego interior, precisamos mesmo é abrir mão daquilo que não precisamos, mas achamos que sim. Precisamos deixar de ouvir falsas promessas e eliminar as pessoas que nos desestabilizam emocionalmente.

Para mim, maturidade espiritual é quando reconhecemos que somos capazes, dentro da possibilidade, de nos redimir. Se não, que nos afastemos ou afastemos o erro. E fazendo isso silenciosamente, não sejam necessárias agressões nem a ninguém, nem a nós mesmos.

Pois, mais importante que reconhecer o erro é a capacidade de não interferir e seguir enfrentando os conflitos com nitidez e resiliência.

Bel Dantas

À minha mãe

À minha mãe

Reservei meu espaço para homenagear minha mãe. Aquela que durante toda a minha infância foi meu referencial de perfeição e heroísmo. Que durante a minha adolescência questionei com muita frequência e que na minha idade adulta me ensinou o poder da compreensão, pois me vi no espelho repetindo tudo em que nos meus momentos de rebeldia questionei.

Minha mãe é uma mulher frágil/forte. A vida lhe apresentou às dificuldades quando ela ainda tinha 16 anos de idade e perdeu o referencial feminino. A sua mãe foi embora e ela virou filha solo de um vovô muito amado e amável, de quem ela herdou uma bondade infinita.

Aos 24 anos, ela já era mãe de 4 crianças e quem é mãe sabe o peso dessa responsabilidade, que se não fosse o amor para nos suster e guiar, não seríamos capazes. Meu Deus, aos 24 anos de idade eu comecei a minha vida, como poderia cuidar e ser responsável por guiar uma vida? Como eu te admiro mãe!

Minha mãe é meu chão. Embora a distância física nos separe, ela está em mim e eu estou nela. Hoje precisei ser eu mesma com toda infinitude que essa expressão puder trazer, pois ficamos muito diferentes ao longo desses anos, mas tem muito dela em mim.

Ela sempre será meu primeiro amor, minha vida, um pedacinho de mim lá em Garanhuns, ou onde quer que ela esteja. Meu amor por ela é tão grande que chega a doer. A estrelinha dela brilha em mim e me inspira, principalmente na maior lição que me deixou: a vida segue, seja forte, creia em Deus, que vai dar tudo certo!

Mãe, “aqui ou n’outro lugar, que pode ser feio ou bonito, se nós estivermos juntas, haverá um céu azul. Um amor puro, não sabe a força que tem. Meu amor eu juro, é seu e de mais ninguém”.

Bel Dantas

É preciso desapegar

É preciso desapegar

Queria dizer que algumas decisões “decididamente”, doem. Principalmente a de deixar para trás. Dar adeus sempre soa muito fúnebre e talvez por isso, as pessoas se apegam ao apego de tal maneira que perdem o que há de mais valioso a qualquer ser humano: a dignidade.

Diariamente precisamos deixar coisas para trás. Antes de começar a redigir essas palavras eu mesma deixei para trás uma coisa que é muito forte em mim: o apego. Me apego às pessoas, aos conceitos, às crenças e percebo quão maduro é necessário ser para deixar acontecer o que vem a seguir. Tive que deixar para trás a ideia que me persegue desde há muito tempo: o que será que vão pensar?

Digo isso, porque desde que comecei a publicar os meus escritos que sou questionada se minhas abordagens se tratam de narrativas pessoais, mas na verdade se tratam de um misto, que é resultado da soma do que vivo com as confidências que ouço.

O normal é suportar o suportável, entretanto, muitas pessoas nos levam aos nossos limites. Algumas por acreditarem que suportaremos o insuportável e outras porque gostam de testar até onde aguentamos. Por isso, é preciso descobrir a hora de soltar aquela âncora que está o tempo todo te levando ao naufrágio.

A persistência impede o nascimento de novos capítulos. Tristes ou felizes eles virão. E a possibilidade de serem felizes está sempre mais atrelada ao desapego, por que a insistência pode em algum momento sufocar com a corda que te prendeu.

Aceitar é um poderoso exercício de tolerância. Infelizmente ninguém está obrigado a suprir nossas expectativas, e fracasso é uma palavra que está no rol do livro da vida como um dos maiores motivadores a acertos, pois te ensina como não errar de novo.

Relacionamentos em que você investiu, coisas nas quais você acreditou, bens que você achou que precisava ter, palavras que você ouviu e guardou como sendo pactos, momentos que compartilhou e que achou que seriam sempre seus, podem não ser. E é necessário desapegar.

Por um momento, vai parecer perturbador, mas você acabará se reencontrando ou até mesmo se redescobrindo.

Bel Dantas

O AUTO CONTROLE NO AMOR NOS AJUDA OU NOS LIMITA?

O AUTO CONTROLE NO AMOR NOS AJUDA OU NOS LIMITA?

Eu costumo ter a tarefa difícil, mas que exerço com muito amor, de aconselhar as minhas amigas sobre diversas situações que vivem. E estava aqui pensando, entre os muitos conselhos que já dei um dos mais importantes de todos foi: não deixe na mão do outro ou em sua confusão mental o controle de sua vida. Busque as respostas, sempre. Mesmo que elas doam, são libertadoras.

As pessoas se perguntam muito o que a atitude do outro está tentando dizer. Se o outro some por que não se importa, se não diz que ama por que não ama. Mas, eu penso da seguinte forma: não dá para deduzir o que o outro pensa, nos baseando apenas no que estamos vendo.

Pois, muitas verdades não são ditas, muitos sentimentos não são explícitos. O estranho disso tudo é que as pessoas acabam por sentir falta do outro, mas preferem não procurar pelo simples fato de achar que o outro não o quer ali. E não enxerga motivos para ir e acaba negligenciando o que sente em função das incertezas emocionais.

Hoje acho tudo isso uma bobagem muito grande, talvez por já ter cometido o mesmo erro e chegado à conclusão de que é mesmo UMA GRADIOSA BOBAGEM. Penso que muita gente não demonstra, não busca pelo receio de ser ignorado e ter o orgulho e a vaidade atingidos. Medo de a saudade não ser recíproca, medo da rejeição, medo.

Tem uma música de Lenine que fala sobre medo. E é interessante a forma como ele coloca por que o medo atinge o homem por todos os lados e o deixa completamente encurralado dentro de si mesmo.

O triste disso tudo é que o medo é muito mais limitante do que resultante. Você não pode colocar na mão do outro a decisão de sua felicidade. As respostas duras, mas verdadeiras são muito mais capazes de te direcionar a fazer a coisa certa, do que as conjecturas, que apenas te aprisionam.

Eu também já fugi de mim mesma, ensaiei encontros onde pretendia camuflar sentimentos, precisei controlar a ansiedade que a saudade promovia, fingi não sentir saudade quando ela gritava de alto falante, mas acabei descobrindo, até pelas observações que faço e pelos desabafos que ouço, que o errado mesmo é fingir que não ama para não se tornar vulnerável e abdicar do que sente e do que poderia ser vivido por apenas imaginar.

O auto controle que pensamos ou ansiamos ter é mera utopia, considerando que nossa boca e nossas palavras dizem uma coisa e dentro de nós, há uma imensidão de controvérsias com este mundo que permitimos ser público. E basta esse conflito para tirar a paz.

Às vezes, da mesma forma que você espera por um sinal, o outro também espera seu sinal. Parece bem infantil, mas as pessoas perdem tempo organizando a bagunça que a saudade é capaz de promover e gasta tanta energia com isso que acaba se perdendo nesse auto controle e deixando a oportunidade passar.

Para finalizar, deixo um trecho da música que cito, onde traduz mais ou menos o que penso:

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor
(Lenine)

 

Bel Dantas

Bel Dantas